Serra da Moeda

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Relatos

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Calais: de Amigo a Ídolo

Por Dr. Lucas Machado


No começo tudo era poesia. Jovens destemidos embalados pelo sonho de voar livre como os pássaros. A turma de novatos, ou de "pregos", como dizíamos à época, era formada por alunos vindos das escolas de vôo livre que existiam em BH. Desta turma de recém formados fazíamos parte Márcio Calais e eu, entre outros. O ano era de 1987. Sua asa, uma kero-kero, era da categoria pano-simples, uma saída de escola grande demais para seu porte franzino àquela época. Embora fosse divertido vê-lo "correr" de um lado para o outro da barra, como um periquito empoleirado, seus relatos descrevendo as dificuldades enfrentadas para controlar o vôo eram feitos de modo apreensivo.

Tendo que enfrentar toda aquela ginástica aérea a cada vôo, Calais limitava-se a decolar apenas quando as condições fossem favoráveis e prediziam um vôo tranqüilo, sem muito esforço. Outra restrição que fazia era não voar aos domingos, dia em que dedicava, com grande alegria, à sua namorada, Juliana, no sítio da família dela. Naqueles tempos, estranhamente, o dia oficial de vôo era apenas o domingo, quando a rampa enchia-se de pilotos, resgates, namoradas, amigos e visitantes. Como eu dedicava todo o meu tempo livre de médico residente ao vôo, era um dos poucos que voava no sábado junto com o Calais, que se empolgava toda vez em que me via voar.

Depois de um ano voando asas intermediárias era uma praxe trocarmos para as de pano-duplo, com rendimento bem superior. Não o Calais. Assim que suas economias de funcionário de um banco estatal permitiram, ele trocou sua enorme e teimosa pano-simples por outra da mesma categoria, mas de tamanho apropriado ao seu peso. Era uma Brisa, como a minha. Agora tudo mudara. Seus vôos passaram a ser empolgantes e cada vez mais arrojados. Ele encontrara o que estava procurando fazia um bom tempo: a alegria de voar. Bastava chegar sábado na rampa para encontrar o Calais montando sua Brisinha e em poucos minutos ele estava dando seus bordos sobre a montanha, com total domínio sobre seu equipamento que fluía suavemente nos céus de um belo horizonte. Depois de muita insistência ele havia conseguido o que tanto queria.

Nos finais de semanas e feriados nos encontrávamos na rampa logo cedo, onde sempre havia uma reunião informal. Era o momento de reforçarmos nossos vínculos de amizade, distribuir conhecimentos, brincadeiras, gozações e planejarmos o vôo do dia. Enquanto montávamos nossas asas, Calais se destacava com seu apurado senso de humor, mordaz, crítico e inteligente. Quanto mais ele nos gozava, mais achávamos graça em suas gozações. E as gargalhadas rolavam convulsivamente. Um de seus alvos preferidos era seu próprio carro, um Fiat 147 já bem surrado, que resistia, quase sempre, aos maus tratos impostos pelos resgates e pela precária estrada de acesso à rampa.

A vida corria rapidamente. Logo ele comprou minha asa pano-duplo, uma K2. Devido ao temperamento instável e grande performance desta asa, foi recomendado muita cautela. Aliás, esta equação envolvendo rendimento e estabilidade é antiga e jamais foi resolvida no vôo livre. Com esta asa ele descobriu o prazer no vôo de distância sem nunca ter se envolvido em acidentes.  Casou-se com a Juliana, sua namorada de infância, que a esta altura já era gerente de um importante banco e revelara-se uma piloto de parapente de enorme potencial, acompanhando o Calais no vôo e sendo acompanhada por ele nos passeios de montain bike. Alguns meses depois que minha filha nasceu, viajamos, a convite dele, para um balneário em Furnas com nossas famílias e nossas asas. Durante três dias, desbravamos o vôo em Escarpas do Lago, decolando de dentro do condomínio e pousando, Deus sabe como, nos arredores, sempre juntos e às gargalhadas.

Trocou seu Chevetinho, o sucessor do famoso Fiat, pelo meu Jeep. Comprou seu próprio apartamento, onde recebia os amigos com grande orgulho e satisfação. Dos sonhos de menino não faltou realizar nem aquele de ter uma super moto. Assim que pode, comprou a sua Kawazaki Ninja, também usada pela Juliana. Jamais esquecerei a oportunidade que ele me concedeu de pilotar aquele foguete na estrada BH-Rio. Nasceu Pedro, seu primogênito, cujo nascimento tive a honra de compartilhar com seus pais. A vida daquele cara de origem humilde estava acontecendo como se fora um romance.

Reservadamente, queixava-se do emprego. Não da tarefa de cuidar do setor de informática do banco, mas da existência de um chefe em sua vida. O fato ser subordinado a alguém ou a alguma coisa lhe causava grande incômodo. Conversas sobre a vontade de ser dono do próprio negócio iam aumentando de freqüência, bem como suas reclamações sobre o emprego e a rebeldia com seus superiores. Até que num belo dia ele me disse que havia pedido demissão e com o dinheiro que receberia iria começar vida nova. Estava pensando em comprar um posto de gasolina, mas precisaria completar o que tinha com algum tipo de empréstimo. Sempre o apoiando em suas decisões, coloquei-me à disposição para o que estivesse ao meu alcance.

Pouco tempo depois, ele me disse ter encontrado um posto que parecia ser um bom negócio. Eu até conhecia o tal posto e também fiquei tão entusiasmado quanto ele que, com a humildade dos grandes homens, pediu-me uma pequena quantia de dinheiro emprestada. Preenchi o cheque com enorme satisfação em poder participar do sonho de um amigo e vendo uma nobre razão na existência de um dinheiro que estava guardado, sem destinação até aquele momento. Um mês depois ele devolveu o dinheiro e fez questão de acrescentar uma taxa de juros, que por pouco não foi motivo de briga, já que eu não via a menor necessidade daquilo e não tinha sido este o propósito. Mas eu, que bem conhecia o Calais, entendia aquele gesto como uma retribuição e era melhor eu ceder, pois ele estava intransigente. Mais tarde soube que ele ainda guardara com carinho a lista daqueles que o ajudaram na empreitada que mudou sua vida e que pretendia coloca-la numa moldura. Fiquei feliz em saber que meu nome constava nela.

Parecia uma criança que acabara de ganhar o presente que tinha pedido a Papai Noel. Tinha conseguido seu próprio negócio e administrava seu posto como se tivesse nascido para aquilo. O posto cresceu, passou por reformas, os clientes apareciam aos montes e o lucro foi apenas conseqüência de seu trabalho. Ao final do dia, quando eu voltava ao posto para pegar meu carro que tinha ficado para lavar, o Calais estufava o peito para mostrar a fileira formada pelos carrões dos amigos e clientes que reluziam impecavelmente limpos. As ofertas começaram a aparecer e ele resolveu vender seu valorizado posto, realizando um lucro inimaginável, mas merecido. Com parte deste dinheiro comprou outro posto.

Conquistada a sua autonomia, poderia dedicar-se àquilo que mais gostava de fazer: voar. Como era seu próprio patrão, permitia-se voar nos dias de semana. Assim, nossos encontros tornaram-se ainda mais freqüentes, pois eu também tinha esta prerrogativa. Sua busca agora era pelo seu aprimoramento técnico. Queria competir mais e tornar-se um dos melhores pilotos do país. Como era típico dele, não se contentaria com pouco. Eu sabia que ele conseguiria, como já havia conseguido tudo o que tinha desejado intensamente. E o brilho em seus olhos não me era inédito. Minas Gerais jamais tivera um piloto de asa-delta de destaque no cenário nacional, marcado por personalidades do quilate de Pepê Lopes, Phil Heagler, Paulo Coelho, Betinho Schmitz, André Wolf, Luizinho Niemayer, Nenê Rotor entre outros. Nossa modesta participação no palanque brasileiro resumia-se a Cid Maestrini, Dedeu de Castro, Henrique Maleta e eu, nunca acima da vigésima colocação no ranking nacional. Vale ressaltar que pelo menos sete pilotos brasileiros estavam sempre entre os cinqüenta melhores do mundo, sendo que dois deles havia sido campeões mundiais, dois outros estavam atualmente entre os cinco melhores do mundo e a equipe brasileira era a atual campeã mundial. Portanto, a ambição do Calais não era pequena.

Calais passou a ser um participante assíduo nas etapas do campeonato brasileiro, que também contava para o ranking internacional e, portanto, era disputado pelos melhores pilotos do mundo. Sua presença passou a ser notada pelos pilotos de ponta, como uma ameaça à supremacia que já durava mais de uma década. A constância com que ele completava as provas passou a ser comentada por todos. Calais, sem perder de vista sua meta e sabendo que poderia fazer melhor, passou a cuidar da parte física, dedicando-se com afinco nas sessões de ginásticas em academias. Seu corpo logo ganhou o porte de um atleta de alta performance. Continuava a chegar aos gols, mas agora já entre os primeiros, principalmente em provas mais longas e desgastantes. Eu agora acompanhava suas façanhas com interesse redobrado e freqüentemente falávamos por telefone depois de cada prova. Ele, ironicamente sempre contido, contava seus feitos estarrecedores em que havia vencido uma prova ou chegado logo atrás do vencedor. Em uma etapa em Governador Valadares conquistou um honroso segundo lugar geral e entrou pela porta da frente para a elite do vôo livre nacional. Calais conseguira novamente o que tanto queria.

A etapa seguinte seria disputada no Pepino, Rio de Janeiro, berço do vôo livre brasileiro e lar de grandes campeões. Embora todos já demonstrassem grande respeito pelo nosso Calais, uma vitória dele ali seria algo impensável por todos, exceto pelo próprio Calais. As baterias eram disputadas homem a homem e, um a um, Calais venceu a todos. Na presença de sua esposa sagrou-se campeão da etapa carioca do campeonato brasileiro de forma histórica. Ainda ecoa em meus ouvidos e me faz tremer o coração, a voz dele me contando como cruzou a faixa de chegada aproximando num longo rasante com vento de cauda sobre a avenida da orla e entre os postes, com o locutor implorando pelo alto-falante que ele não tentasse cruzar a faixa, pois não teria altura para dar um bordo e pousar com o vento de frente. Talvez não tivesse altura nem para passar por cima dos espectadores que se aglomeravam na beirada do paredão. Ele não só cruzou a faixa como deu o bordo de 180 graus com a ponta da asa riscando a areia da praia e terminou com um pouso perfeito na mosca. Foi ovacionado pela platéia incrédula, formada inclusive por seus adversários que se renderam às habilidades e coragem daquele mineirinho. Ele havia conseguido novamente.

Seu nome passou a ser mencionado nos maiores centros mundiais de vôo livre. Um amigo austríaco, que passa o inverno europeu no Brasil, empolgou-se ao dizer a seus compatriotas que conhecia aquele piloto brasileiro de quem eles comentavam, lá pela Europa, as suas proezas. Passou a comparecer na mídia, ocupando grandes espaços até então jamais reservados ao vôo livre. Um famoso piloto ucraniano e dono de uma importante fábrica de asas viu no Calais a possibilidade de elevar ainda mais o nome de seus equipamentos. Calais passou a ser um piloto patrocinado por uma fábrica internacional e outros patrocinadores ofereceram-se para ajudá-lo em suas despesas e ele não mais gastava dinheiro com o vôo livre. Um antigo desejo, que ele já havia me manifestado, tornara-se realidade.

Nasceu seu segundo filho. Outro menino, como queria o Calais. Novamente tive a alegria de estar presente neste momento. Foi batizado com o nome de Lucas e eu, pretensiosamente, me senti homenageado.

Agora seu plano era fazer parte da equipe brasileira que disputaria o campeonato mundial na Espanha, defendendo o título de Campeã Mundial. Para isto, bastava que ele estivesse entre os seis melhores e ele já ocupava a quinta posição. Os convites para participar de eventos fora do país começaram a chegar com mais freqüência. Nestas ocasiões, ele sempre incluía a família em seus planos. Ele acreditava que se o vôo privava sua mulher e filhos de seu convívio, também deveria recompensá-los, proporcionando outros momentos de alegria, como uma viagem que havia programado para a Flórida. Sob o pretexto de disputar lá um campeonato para o qual havia sido convidado, levaria toda a família para conhecer a Disney.

Calais foi um grande amigo. Fazia questão de se manter próximo. Ligava sempre que podia, para conversar amenidades, embora o assunto sempre derivasse para o vôo. Nossas famílias também eram muito ligadas. Nossos filhos cresciam juntos, nas piscinas dos clubes. Parecia que ele via em mim alguém de quem gostava de ouvir opiniões sobre seus planos. Talvez por isso é que tenhamos escolhidos os mesmos carros, as mesmas asas, os mesmos cintos, os mesmos variômetros e até os mesmos capacetes. Nossas esposas eram muito amigas e tinham em comum a aflição de serem casadas com voadores, o que as mantinham ainda mais unidas. Reconhecíamos em nossas famílias a razão maior de nossas existências, embora isto fosse improvável antes de tê-las e com o vôo tão presente em nossas mentes. Ele tentava conciliar a vida de voador com a de chefe de família. Pensando nisso, comprou um terreno no condomínio logo abaixo da decolagem e nutria planos de, brevemente, construir ali a sua casa. Deste sonho eu também compartilhei e seríamos vizinhos. Sem que ele se desse conta, aquele meu amigo havia se transformado no meu ídolo.

Na etapa de Valadares em que se decidiria a formação de equipe brasileira, fiquei em casa acompanhando os resultados via internet e por telefone, fazendo as contas dos descartes finais para mante-lo informado de sua classificação. Seu desânimo era preocupante. Sua asa nova não chegara a tempo e a que estava usando era mais antiga do que as de seus adversários e não rendia satisfatoriamente. Mas sua habilidade compensava esta deficiência e o mantinha entre os primeiros. Antes do final da etapa ele me ligou avisando que se sua asa nova chegasse, ela a usaria. Sabendo da dificuldade de adaptação a um novo equipamento e a necessidade de pequenos ajustes e regulagens, ponderei que talvez não fosse recomendável. Ele humildemente aceitou meus argumentos e acabou na sexta posição ranking e com a vaga assegurada. Comemoramos como loucos. Ele estava na equipe brasileira que disputaria o mundial. Calais conseguira novamente realizar seu sonho.

Sua nova asa finalmente chegara. Agora vinha de um novo patrocinador, outro tradicional fabricante de asas, desta vez australiano. Calais me ligou, antes mesmo de experimentá-la, empolgado com os detalhes que, no nível em que ele se encontrava, faria uma grande diferença. Achou-a um pouco pequena, talvez comparando-a com a antecessora. Após seu primeiro vôo de teste voltamos a nos falar. Ele estranhou muito o comportamento dela. Era mesmo pequena, portanto ágil, veloz, mas instável. Lembrava a K2, que já havíamos compartilhado. Lamentou ter que mudar seu estilo de voar, pois não poderia mais enroscar nas térmicas tão lento quanto gostaria, já que esta asa apresentava tendências a estolar uma das pontas em baixa velocidade e entrar em mergulho. Seus planos eram voar nas próximas semanas o maior número de vezes possível com ela até acostumar-se com as suas reações. Para isto, voaria durante os dias de semana e me convidou a acompanhá-lo, se houvesse disponibilidade. Infelizmente o trabalho foi intenso naquela semana e não pude aceitar o convite.

Sexta feira, dia 6 de abril de 2001, 10 horas da noite. Eu estava de plantão na maternidade, preparando uma parturiente que daria a luz dentro de poucos minutos. Toca o telefone. Era a Juliana. Sua aflição era indisfarçável. Pedia ajuda. Calais tinha ido voar, não havia mais dado notícias, não respondia ao celular e seu carro ainda estava na rampa. Um frio correu minha espinha e fui tomado de pavor. Parecia que alguém me acertara em cheio o peito com um porrete. Tentei manter a calma, tranqüilizar a Juliana e disse que iria dar uns telefonemas e ligaria de volta logo. O nascimento daquela criança foi envolto por um clima místico. Liguei para alguns amigos que poderiam ajudar e um mutirão logo se formou, envolvendo rádio amadores de várias cidades, voadores, bombeiros e familiares. Às 4 horas da manhã as buscas foram interrompidas. Era impossível imaginar que nada de muito grave tinha acontecido. Calais teria entrado em contato, se estivesse em condições de fazê-lo. Torcíamos para que estivesse pousado em uma “Terra de Ninguém”, sem cobertura de celular, com a bateria do rádio descarregada, sem uma carona para tirá-lo dali e com o pé torcido, sem condições de andar. Mas esta hipótese era remota e servia apenas para nos consolarmos diante de nossa impotência.

Depois de uma noite absolutamente insone, às 6 horas da manhã, junto com os primeiros raios de luz, chega a notícia de que um amigo voador que mora nos arredores acabara de avistar uma asa no topo da serra. Ele subiu a encosta na esperança de encontrar logo o amigo e ajuda-lo no que fosse preciso. A asa parecia íntegra, embora com a vela toda apoiada no solo. Sob ela, como que o protegendo do relento, jazia o corpo de um herói. A notícia que todos temíamos chegou quando eu já estava a caminho do local onde a asa foi avistada. Senti o chão se abrir sob meus pés. Ao chegar onde deveria deixar o carro e seguir a pé até o cume para me juntar ao amigo encontrei seu pai desolado. Ele não tivera forças para a caminhada morro acima. Tudo que ele conseguiu me dizer foi que parecia que a asa nem tinha se estragado. Deixei-o ali, entorpecido pela tragédia. Enquanto subia a encosta íngreme rumo ao topo, meus pensamento iam à minha frente. Ainda não tinha conseguido acreditar no que estava acontecendo. Subi ofegante, escutando meus próprios gemidos, abafados pela dor que me sufocava.

A cena que avistei ao longe parecia fazer parte de um sonho ruim. Tudo se passava em câmera-lenta. O Calais tombado como um guerreiro abatido em combate. Com um braço estendido sobre a cabeça, parecia que voava como o Super-Homem. Seu rosto coberto por um pano de linho branco, que me lembrou um sudário. À sua volta, Juliana segurava sua mão. Seu irmão lhe acariciava o peito e o amigo que sempre fazia seus resgates estava prostrado ao seu lado, todos aos prantos. Guardando uma distância respeitável, outros amigos e bombeiros que participaram da busca velavam em silêncio absoluto. Ao me aproximar dele, uma profunda sensação de culpa tomara conta de mim. Por que fui deixar que isto acontecesse com ele? Onde foi que eu o abandonei? Por que eu não impedi aquilo, se ele contava tanto comigo? Perdoe-me, amigo.

A Juliana me pediu, ali mesmo, que eu jurasse pelo Calais que nunca mais voaria. Não tive forças para tal, pois se o fizesse iria cumprir e me restava fazer, pelo menos, mais um vôo em sua memória. Perdoe-me, Juliana, mas talvez não seja necessário jurar. Voar perdeu a graça. Tudo ficou sem sentido. Ver ali a tal asa, que o Calais me reclamara, não me trazia nenhum sentimento nobre. À medida que eu a desmontava, uma raiva crescia. Cada tala que tirava me fazia lembrar que fora meu amigo quem a colocara ali. Terminado aquele doloroso ritual, olhei ao redor. Estava no topo do morro mais alto da região. Podia ver o Calais enroscando na sua última térmica que o levaria de volta à rampa, onde estava seu carro. Faltava pouco para que ele estivesse a caminho de buscar seu filho na escola. Mas algo deu errado e seu vôo terminou abruptamente naquele topo, no ponto mais alto, como sua própria vida.

Calais nos deixa o legado da perseverança. Seus valores devem ser cultivados por seus amigos, que viam nele o exemplo de um herói que era, para que seus filhos um dia saibam o grande homem que foi. E que aprendamos a lição de que para conseguirmos realizar nossos sonhos não basta querer, temos que querer intensamente.

Juliana, Pedro e Lucas, o Calais agora vive dentro de cada um de nós, pois neste processo de luto incorporamos e trazemos junto a nós tudo o que diz respeito a ele. Ele agora está em cada nuvem, no vôo do pássaro, na carícia de uma brisa, na força de uma rajada. E cada vez que erguermos o olhar para o céu, nós o veremos.

Vá com Deus, amigo. Um dia iremos nos reencontrar.

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