Serra da Moeda

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Conhecendo a Serra da Moeda por Lucas Machado (clique aqui)

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A rampa de decolagens de parapentes e asas-deltas do Clube de Vôo Livre de Belo Horizonte, na Serra da Moeda, fica a 25 km do centro da capital mineira, a 1.500m de altitude.

A Serra da Moeda é uma cordilheira que contribui para a formação do maciço do Espinhaço, estendo-se de norte a sul por mais de 60 km, sendo que a face leste tem em média 150m de altura e a face oeste tem cerca de 650m.

A condição meteorológica para a prática do vôo livre é extremamente favorável, com dinâmica bem definida. O vento regional predominante, em condições estáveis, amanhece fraco, vindo do nordeste. No meio da manhã entra mais de leste e mais forte.

À medida que o sol passa a aquecer mais o Vale do Paraopeba, a face oeste da serra, as correntes térmicas de ar que ascendem do vale começam a criar instabilidades, que diminui o vento, quase o parando. Este é o momento que os pilotos aguardam, já prontos pra decolar.

Com o desenvolvimento da janela de vôo, as térmicas vão ganhando força, volume e a ocorrência de vento forte de oeste na rampa durante o seu desprendimento é freqüente. Este vento tende a diminuir junto com a diminuição das térmicas, voltando a ser de leste a nordeste, tão logo a condição se estabilize novamente.

Com este sistema de ventos, a rota voada pela maior parte do tempo com vento de popa seria pra o sudoeste. Mas, curiosamente, as maiores distâncias registradas são de 155 km em asas-delta na rota sul e 164 km de parapente na rota oeste, o que reforça a suspeita do grande potencial de vôo cross-country no quadrante sudoeste.

Aproveitando-se das conhecidas mudanças no microclima local, grandes percursos de triangulação ou ida-e-volta são alcançados, com vários waypoints possíveis em todas as rotas, tanto no vale, quanto no platô a leste da cordilheira e mesmo ao norte, em direção à capital.

Em setembro tem início a melhor temporada de vôo livre no ano, que vem junto com a chegada da primavera e o aumento da instabilidade. Os dias se desenvolvem claros, raiando com poucas nuvens, inversão térmica por volta de 1300m, vento fraco a moderado, relativamente frio pela intensidade do sol, ar seco e freqüentes queimadas que deixam uma bruma até o teto da inversão. Esta inversão tanto pode ser ultrapassada por um piloto, como ela pode subir gradativamente com o desenrolar da atividade termodinâmica, chegando a mais de 4.000m no seu auge.

Por estar na região metropolitana de Belo Horizonte, o vôo na Serra da Moeda é muito bem provido de facilidades urbanas. Porém, um maior adensamento leva a uma diminuição das opções de pouso e aumento da incidência de fios elétricos. Esta restrição é maior no entorno da rampa de decolagem e praticamente se extingue já no início dos vôos de distância.

A decolagem para o lado leste é conhecida como Moedinha. Ocasionalmente, a massa de ventos predominantes não se altera, insistindo em vir do nordeste, que sopra forte. Resta aos pilotos decolar para o lado com menos de 150 metros, altura em que a maioria estaria em procedimento de pouso. Esta característica costuma criar dificuldades como restrição de espaço aéreo, térmicas fortes, pequenas e instáveis, com deslocamento horizontal rápido e errático. Uma vez conseguido ganhar altura, é possível perceber padrões mais amenos em camadas sem tanta influência orográfica.

A transição entre o vôo no Moedinha e o vôo sobre o vale é feita com altura o suficiente para que se evitem esteiras de turbulências criadas pelo vento no cume da cordilheira, que desce para o vale em forma de vórtice, acompanhado o relevo. Efeito que também se observa no sentido contrário, ao se passar voando do vale para o Moedinha, com vento de oeste. Quanto mais forte for o vento, maior será a área de influência e mais intensamente se formam vórtices. Quanto maior a atividade térmica dentro do vale, menor será este fenômeno, mesmo com ventos mais intensos.

O Vôo Livre na Serra da Moeda acontece a mais de 30 anos, tendo sido formada uma massa crítica de pilotos experientes, com conhecimentos em meteorologia, aerodinâmica, dinâmica de fluidos, fisiologia, tecnologia digital, geologia, biologia, engenharia, meio-ambiente, entre outros, que se dedica ao desenvolvimento desta atividade aero-desportiva. Por ser um local de características peculiares, freqüentemente a dinâmica de vôo é mal compreendida por aqueles com menos assiduidade. No início, a Moeda era tida como um local de vôo perigoso, com grandes turbulências, ventos e térmicas fortes. Mas como o prelúdio do vôo na Moeda coincide com o do vôo livre no Brasil, as questões de segurança não devem ser todas atribuídas exclusivamente às características do local de vôo. A Serra da Moeda, ainda hoje, é um dos melhores locais para a prática do vôo livre no país, contando com condições que fazem dela uma rampa única.

Por Dr. Lucas Machado.

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